Três anos fazendo ciência nos Estados Unidos: lições de um pesquisador brasileiro

Em 2023, quando saí do Brasil para os Estados Unidos para fazer meu pós-doutorado, um dos principais motivos da minha mudança, além das melhores condições econômicas para ajudar minha família, era poder estar em um lugar que incentivasse a pesquisa e o desenvolvimento científicos. Essa decisão veio apenas após cinco anos de contribuição como professor de computação na pequena cidade de Arapiraca, em Alagoas. Acho importante contextualizar, já que toda comparação ou análise, por mais fria que seja, carrega um viés. E, ao expor o meu viés, fica mais fácil para quem lê enxergar de onde parte o meu ponto de vista.

No Brasil, apesar de trabalhar em Arapiraca, eu morava em Marechal Deodoro (cerca de 110 km), no bairro Praia do Francês — considerada uma das dez praias mais belas do Brasil. Foi lá que virei surfista aos 14 anos e sempre carreguei a veia do esporte por onde fui, graças ao incentivo da minha família e também à sorte de ter vivido em lugares e contextos que facilitavam a prática: futebol, surfe, natação e por aí vai.

Também venho de origem humilde e minha família, apesar de nunca ter me deixado faltar nada, viveu por um período sob insegurança alimentar e econômica. Para nós, um trabalho com carteira assinada ou um concurso público representava o ápice do que se poderia sonhar. Quando tive a oportunidade de ingressar em um centro federal de ensino para estudar e, posteriormente, me tornar professor em um instituto federal, tornou-se difícil ignorar os benefícios que políticas públicas, muitas vezes associadas a governos mais alinhados à esquerda, trouxeram para pessoas da minha origem social.

Digo isso porque teria sido, por exemplo, impossível para meus pais pagarem colégio ou faculdade particulares para mim. Ter tido acesso a uma educação pública, gratuita e de qualidade fez uma diferença enorme na minha vida. Tudo isso para resumir que, sim, esta publicação — para quem queira simplificar — carrega um viés que poderia ser chamado de “esquerda”. Mas prefiro me apresentar como alguém que acredita em políticas de capital social e bem-estar — o chamado Welfare State.

O momento em que decidi tentar construir uma carreira científica internacional não aconteceu da noite para o dia. Foi depois de quase três anos tentando fazer um laboratório de pesquisa dar certo no Brasil, em um campus de um Instituto Federal cuja história ajudei a construir e que também me ajudou a construir a minha própria história como pessoa e profissional. A decisão veio quando percebi que, por falta de incentivos, recursos e condições estruturais, eu não conseguiria realizar o trabalho da forma que acredito.

Nosso pequeno Laboratório de Engenharia e Análise de Dados em 2022.

Não seria com ~200 alunos e 20 horas de aula semanais que eu conseguiria desenvolver projetos de pesquisa de maneira consistente. Em algum momento percebi que o sistema — como diria o capitão Nascimento — era algo que eu dificilmente conseguiria mudar sozinho, apesar de ter tentado bastante. Mas essa é outra história.

Embora atualmente o incentivo à pesquisa nos Estados Unidos também enfrente desafios e oscilações políticas, o cenário ainda é bastante diferente. A forma como empresas (Google, NVIDIA, Meta), organizações não governamentais e agências de fomento encaram a importância da produção científica faz com que o pesquisador encontre aqui oportunidades que seriam muito mais limitadas no Brasil.

Para se ter uma ideia, o orçamento do CNPq em 2025 foi de aproximadamente R$ 1,82 bilhão, enquanto o orçamento da National Science Foundation (NSF) foi de cerca de US$ 9 bilhões (aproximadamente R$ 45 bilhões). Ou seja, uma única agência americana dedicada à pesquisa científica possui um orçamento cerca de 25 vezes maior do que o principal órgão de fomento à pesquisa do Brasil. Isso sem considerar outras agências federais americanas que também financiam ciência em larga escala, como o NIH, NASA ou o Department of Energy.

Além disso, estudantes de doutorado nos Estados Unidos são frequentemente tratados como profissionais em formação: recebem salário, plano de saúde e benefícios institucionais, assim como pós-doutorandos.

Com base nessa experiência, deixo seis lições que observei em cada sistema de fomento à pesquisa.

Transparência

Preciso destacar o quanto os editais do CNPq e de outras instituições brasileiras são transparentes. Os critérios costumam ser bastante claros e as avaliações seguem parâmetros relativamente objetivos, combinando aspectos qualitativos e quantitativos.

Nas chamadas de pesquisa das quais participei nos Estados Unidos — por exemplo, da NASA ou da NSF — , apesar de termos acesso aos pareceres dos revisores, os critérios de pontuação nem sempre são totalmente claros, e o ranqueamento das propostas submetidas geralmente não é divulgado.

Previsibilidade

Apesar das mudanças recentes que ocorreram na NSF durante a atual administração, os programas de diversas agências seguem agendas relativamente estáveis, permitindo que laboratórios e pesquisadores se planejem com antecedência.

No Brasil, lembro de iniciativas dentro da própria rede federal que funcionaram por apenas um ou dois anos e depois simplesmente deixaram de existir. Isso dificulta muito a continuidade das pesquisas e o planejamento de longo prazo.

Remuneração, orçamento e burocracia

Infelizmente, nesse aspecto a comparação é difícil. No Brasil, o plano de carreira de professores federais é praticamente uniforme. Isso significa que um professor-pesquisador com diversos projetos ativos e forte produção científica recebe, oficialmente da instituição, o mesmo salário de um professor que possui uma carga de trabalho concentrada apenas em ensino.

Qualquer remuneração adicional geralmente depende de bolsas de pesquisa, que são temporárias e incertas. Apesar de existirem normativos caminhando na direção de reconhecer melhor a atividade científica, a realidade institucional ainda é bastante limitada.

Nos Estados Unidos, por outro lado, professores que lideram laboratórios de pesquisa frequentemente têm parte significativa do seu salário vinculada à produtividade como um todo. Isso cria um incentivo claro à produção científica e ao desenvolvimento de grupos de pesquisa sólidos.

O próprio orçamento das universidades americanas prevê recursos consideráveis para pesquisa. As instituições entendem que a produção científica fortalece o prestígio acadêmico, atrai alunos e aumenta a visibilidade institucional. No Brasil, infelizmente, o orçamento interno destinado à pesquisa costuma ser mínimo e altamente dependente de editais externos do CNPq ou da CAPES.

Além disso, na minha experiência no Brasil, firmar acordos de parceria fora de editais oficiais pode ser extremamente burocrático. A cadeia de aprovação institucional é longa e complexa — já participei de processos com mais de 200 páginas de documentação. Nas universidades americanas, apesar da fiscalização rigorosa, a autonomia para desenvolver projetos e estabelecer parcerias costuma ser maior.

Doações

A cultura de doações para universidades brasileiras ainda está muito distante da realidade americana. Apenas na universidade onde trabalho atualmente, um único doador destinou o equivalente a todo o orçamento de um edital universal do CNPq — um edital disputado por todas as universidades e instituições de pesquisa do Brasil.

Talvez por receio de perder financiamento federal, ou por falta de tradição institucional, esse tipo de prática ainda é raro no Brasil. O esforço para incentivá-la também parece ser relativamente pequeno.

Estrutura física e ambiente acadêmico

Um aspecto que muitas vezes passa despercebido nas comparações entre sistemas científicos é a infraestrutura física das universidades. Nos Estados Unidos, os campi universitários são planejados como verdadeiros ecossistemas de trabalho e convivência acadêmica. Há bibliotecas amplas que funcionam até tarde (ou 24 horas), espaços de estudo colaborativo, laboratórios bem equipados, áreas de convivência para estudantes e pesquisadores, cafés, salas de reunião e ambientes pensados para estimular a interação entre grupos de pesquisa.

Campus da Saint Louis University onde vim realizar o meu pós-doc.

Esse tipo de estrutura influencia diretamente o comportamento acadêmico. Alunos de graduação, doutorado e pesquisadores tendem a passar muito mais tempo no campus — não apenas assistindo aulas, mas estudando, colaborando em projetos e interagindo com outros laboratórios. Muitas ideias de pesquisa surgem justamente nesses espaços informais de troca.

Em muitas instituições brasileiras, infelizmente, a realidade é bastante diferente. A precariedade de infraestrutura, a limitação de espaços de estudo e a falta de ambientes adequados para colaboração fazem com que o campus muitas vezes funcione apenas como um local de passagem: o aluno vai para assistir aula e depois vai embora. Isso reduz as oportunidades de interação acadêmica espontânea, fundamentais para o desenvolvimento de projetos científicos e para a formação de uma cultura de pesquisa mais forte nas universidades.

Carreira de pesquisador

Ao tratar doutorandos e pós-doutorandos apenas como bolsistas, o Brasil acaba introduzindo um elevado grau de incerteza e reduzindo a atratividade da carreira científica. Esses pesquisadores representam, em grande parte, a principal força de trabalho da ciência em qualquer país.

Como se já não bastasse a competição com salários muito mais altos na indústria, pesquisadores no Brasil ainda precisam lidar com a instabilidade de bolsas temporárias, ausência de benefícios trabalhistas e um reconhecimento profissional muitas vezes limitado.

Valorizar essas posições como carreiras científicas legítimas — com estabilidade mínima, direitos e perspectivas claras de progressão — seria um passo importante para fortalecer o sistema de ciência e tecnologia no país.

No final das contas, minha decisão de sair do Brasil nunca foi uma rejeição ao país que me formou. Pelo contrário: foi justamente porque acredito no potencial da ciência e da educação pública brasileiras que continuo refletindo sobre essas diferenças. Comparar sistemas não deveria ser um exercício de desqualificação, mas sim uma oportunidade de aprendizado institucional. Afinal, se há algo que a ciência nos ensina, é que bons sistemas são aqueles que aprendem com evidências — e que estão sempre dispostos a evoluir.

Importado de Medium em 9 de março de 2026.