A importância do desconforto e não ter vergonha de ser um eterno aprendiz

Na última semana, o título de uma notícia me chamou a atenção: “Gen Z: a primeira geração com QI inferior à anterior”. Fiquei curioso, e os detalhes de um estudo recente revelam que, pela primeira vez na história moderna, a Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) está registrando pontuações de QI inferiores às dos Millennials.

O relacionamento é monotônico: mais tempo de tela, menor desempenho.

Durante décadas, a humanidade seguiu o chamado “Efeito Flynn”, uma regra segundo a qual cada geração nascia mais inteligente do que a anterior. Mas parece que o jogo virou. O declínio não é um caso isolado, mas uma tendência global em mais de 80 países que teve início por volta de 2010, período que coincide com a entrada de smartphones e tablets nas salas de aula.

A mudança mais expressiva está na leitura. Para manter o foco da Gen Z, testes de compreensão que antes usavam textos de 750 palavras foram reduzidos para apenas 75. Para se ter uma ideia, crianças que usam telas por apenas cinco horas por dia, especificamente para seus estudos, tiveram notas menores do que aquelas que raramente ou nunca usaram tecnologia em sala de aula.

O mais curioso é que a geração que mais teve acesso a informações está se tornando a menos inteligente. No fim, a facilidade da internet e das IAs pode levar os jovens a um futuro perigoso.

Por outro lado, jovens adultos, com muito mais formas de se conectar, estão cada vez mais ansiosos, depressivos e dependentes de medicamentos, seja para equilibrar a química do cérebro, seja para perder peso e entrar num suposto padrão estético — ainda que isso custe a saúde de seus órgãos internos — como no caso da moda das canetas emagrecedoras.

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Para completar, aplicativos de entrega de comida, de relacionamento, de transporte, redes sociais, robôs que resumem textos e escrevem nos poupam de boa parte do trabalho cognitivo e do “esforço” físico para obter o que quer que seja. A comparação, que antes era só com o vizinho, agora é com uma rede de centenas ou milhares de pessoas, onde até a quantidade de horas de sono virou motivo de status. Um contexto que, à primeira vista, parecia controlado, ideal, em um mundo cada vez mais corrido, acelerado e conectado.

Por muito tempo, eu tive preconceito com alguns coaches e com conversas do tipo “trabalhe enquanto eles dormem”, que podem ser nocivas, embora eu ainda entenda que a meritocracia é algo que não se pode levar a sério quando o ponto de partida de cada um é tão diferente. Porém, o outro extremo é igualmente danoso: a passividade. Não podemos esperar que estejamos aqui apenas para usufruir do conforto, sem passar por momentos de dor e aprendizado.

Não há crescimento sem dor.

Evitar o desconforto, evitar situações que exijam que sejamos maiores e melhores é apenas uma forma de evitar crescer. Na prática, evitar ler um texto mais complexo e paralisar diante do desafio de se tornar um aprendiz ao tentar algo novo é um pecado contra milhares de anos de evolução que nos permitiram ser quem somos hoje e termos a possibilidade de construir coisas tão poderosas quanto a própria IA.

A tecnologia chegou mais rápido do que tivemos tempo de preparar a sociedade para ela, como sempre foi. Porém, ainda há esperança de que estudo como esse sirva de motivação e de lembrança de que há beleza em ser um eterno aprendiz, como diria Gonzaguinha em 1982. Por exemplo, lembro de quando eu, ainda estudante de graduação, aprendi de fato a escrever e entender algoritmos e a resolver questões de lógica, na época, complexas para um iniciante, como ensinar a um programa a calcular uma simples sequência de Fibonacci. Ainda lembro do sentimento gratificante de perceber que meu cérebro fez as conexões necessárias para que eu entendesse. É dessa resiliência que cultivamos esperança e aprendemos a encontrar paz e beleza no desconforto — algo que praticidade e comodidade não compram.

Isso vale para diversas outras situações de vida. O segredo não é buscar uma vida confortável, sem conflitos, mas aprender a encontrar paz (ou, ao menos, clareza de pensamento e força motora) no desconforto. Não é sobre evitar conflitos, e sim aprender a lidar com eles sem se perder. Estar em paz é diferente de ser passivo, de apenas aceitar tudo aquilo que parece ser cômodo. Quando lições tão importantes são ignoradas, a vida cobra.

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Essa situação me lembra como sempre admirei a jornada das tartarugas, desde a quebra dos ovos, quando os filhotes nascem, até a chegada ao mar. Instintivamente, elas sabem que, se ficarem no conforto dos ovos e não encararem o desconforto e o medo do desconhecido em direção ao mar, virão a ser presas fáceis para outros répteis e aves. Quando paramos e observamos a natureza (ou seja, nós mesmos como parte dela), vemos que não se evolui com medo.

Somos resultado de milhões de anos de evolução em que precisávamos lidar com o desconhecido e com o incontrolável. Precisamos aprender a nos adaptar ao imprevisível e a encontrar caminhos mesmo sem ter acesso a toda a informação. Desenvolvemos o nosso instinto, aguçamos os nossos sentidos, aprendemos com a natureza e sobrevivemos por termos aprendido a observá-la e a sermos pacientes, respeitando o tempo de cada processo, e não por receber um trailer de 40 segundos sobre como tudo funciona.

Então, mesmo quando o próximo passo parecer desconfortável, lembre que a vida e a sua evolução exigem movimento e tempo para acontecerem.